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Nem todo som cavo é patologia

Mundo Planville®

7 min de leitura

Uma placa com som cavo deve necessariamente ser substituída? As normas estabelecem um limite aceitável? E por que, às vezes, novas regiões ocas aparecem depois de um reparo? Neste artigo, discutimos uma das questões mais controversas das entregas de obras atuais: quando o som cavo é apenas um indicador — e quando ele realmente revela perda de desempenho.

Nem todo som cavo é patologia — e nem toda placa aparentemente íntegra está necessariamente bem aderida. O desafio está em interpretar o sistema, não apenas o ruído.

Nos últimos anos, poucas discussões têm aparecido com tanta frequência nas entregas de empreendimentos quanto o chamado som cavo em revestimentos cerâmicos.

O assunto parece simples: percute-se uma placa, identifica-se uma sonoridade diferente e surge imediatamente uma pergunta:

Essa placa precisa ser substituída?

Na prática, a resposta é muito menos simples.

Recentemente recebi de um colega uma pergunta muito bem formulada sobre um piso porcelanato que, após intervenções pontuais, ainda apresentava algumas regiões localizadas com som cavo. As placas permaneciam estáveis, sem movimentação ao caminhar, sem trincas e sem evidência visível de perda de desempenho.

O cliente, entretanto, entendia que qualquer ocorrência de som cavo seria suficiente para rejeitar o serviço.

Esse questionamento me levou a uma reflexão que ultrapassa aquele caso específico.

Hoje, o som cavo parece ter se transformado numa espécie de “incógnita do momento” nas entregas de obras.

E talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

O que o som cavo realmente nos informa?

O primeiro ponto é fundamental:

som cavo não é, por si só, um diagnóstico. É um indicador.

A percussão pode revelar uma possível descontinuidade na interface aderida, mas, isoladamente, não permite concluir automaticamente que exista:

  • falha construtiva;
  • perda de desempenho;
  • risco de destacamento;
  • comprometimento da segurança;
  • ou necessidade imediata de substituição.

No documento que preparei sobre o tema, destaquei exatamente esse ponto: a avaliação deve considerar a aderência, a distribuição dos vazios, sua localização, as dimensões das placas, as ações térmicas e estruturais e, sobretudo, a evolução do sistema ao longo do tempo.

Em Engenharia Diagnóstica, o ruído é um sintoma.

A causa precisa ser investigada.

O vazio existe. Mas quanto vazio é aceitável?

Aqui começa uma das principais dificuldades.

No estudo apresentado, destaquei que as normas brasileiras citadas no documento — ABNT NBR 13753, NBR 13754 e NBR 13755 — não estabelecem um percentual admissível de som cavo nem um número máximo de placas com essa ocorrência que possa, isoladamente, servir como critério de aceitação ou rejeição.

Esse é um ponto extremamente importante.

Não existe, nessas referências, uma regra simples do tipo:

  • “até 5% pode.”
  • “acima de 10% reprova.”
  • “qualquer som cavo deve ser removido.”

A questão é mais complexa.

Durante a execução, entretanto, o controle precisa ser rigoroso.

As próprias referências discutidas no material destacam a necessidade de verificar a qualidade do assentamento, incluindo o preenchimento adequado do tardoz e a correção de falhas significativas de contato ou aderência.

E aqui existe uma distinção que considero essencial:

uma coisa é aceitar falhas durante a execução. Outra é diagnosticar um revestimento depois de concluído.

Durante a execução, devemos perseguir a excelência.

Depois de concluído o sistema, o diagnóstico precisa considerar seu desempenho real.

O foco deveria estar na interface de aderência

No estudo, também recorri a referências internacionais, como ANSI A108.5 e TCNA Handbook, que trabalham com requisitos de cobertura da argamassa e com a adequada distribuição do contato, especialmente nas bordas e cantos das placas.

Essas referências ajudam a mudar o centro da discussão.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Existe som cavo?”

e passa a ser:

“Como está funcionando a interface aderida?”

Essa mudança é importante.

Porque uma pequena região oca localizada no interior de uma placa não representa necessariamente o mesmo comportamento de uma deficiência de aderência distribuída em suas bordas.

O tamanho da placa também importa.

A localização do vazio importa.

A solicitação importa.

O ambiente importa.

A evolução ao longo do tempo importa.

Ou seja:

O mesmo som pode ter significados técnicos completamente diferentes.

As grandes placas tornaram o problema mais visível

Com o aumento dos formatos das placas cerâmicas e porcelanatos, tornou-se mais frequente a discussão sobre som cavo.

Há mais variáveis envolvidas:

  • planicidade do contrapiso;
  • irregularidades do substrato;
  • curvatura das próprias placas;
  • distribuição da argamassa colante;
  • formação dos cordões;
  • tempo em aberto;
  • pressão e movimentação durante o assentamento;
  • deformações do sistema.

No documento, inclusive, recorri ao Manual Setorial para Grandes Formatos da ANFACER, que orienta a realização de testes durante o assentamento, a verificação dos cordões de argamassa e o controle ainda na fase executiva.

Essa talvez seja uma das maiores lições de toda essa discussão:

não devemos esperar a entrega do apartamento para descobrir como o piso foi assentado.

O melhor diagnóstico continua sendo aquele que não precisa acontecer porque o controle de execução foi bem realizado.

E existe ainda um fenômeno pouco discutido: a cinética da degradação

Este talvez seja o ponto mais interessante da reflexão.

Um revestimento cerâmico não é um sistema estático.

Ele está submetido a tensões internas.

Quando removemos uma peça e alteramos localmente esse sistema, podemos modificar a distribuição dessas tensões.

Foi exatamente isso que ocorreu no caso que originou a análise.

Algumas placas haviam sido substituídas.

Depois da intervenção, peças vizinhas que anteriormente não apresentavam som cavo passaram a apresentá-lo.

A pergunta foi imediata:

“O reparo causou um novo problema?”

Minha resposta foi: não necessariamente.

A intervenção pode ter provocado uma redistribuição das tensões existentes.

Esse comportamento é semelhante ao observado em outros sistemas estruturais: quando retiramos ou modificamos um elemento, alteramos o caminho de transmissão dos esforços.

No documento, tratei isso como parte da cinética da degradação do revestimento.

Isso significa que sucessivas substituições de placas nem sempre representam a melhor solução.

Em alguns casos, podemos simplesmente deslocar o problema para a placa ao lado, sem eliminar sua causa.

E então começa um ciclo perigoso:

retira → reassenta → aparece outro som cavo → retira novamente → surge outro.

Até quando?

O mercado parece ter adotado uma resposta simples para um problema complexo

Há hoje uma tendência de exigir:

“zero som cavo”.

É uma posição compreensível do ponto de vista do usuário.

Quem compra um apartamento novo deseja recebê-lo perfeito.

Mas a engenharia precisa tomar cuidado para não transformar uma expectativa legítima em um critério técnico sem fundamentação suficiente.

No documento, registrei que essa percepção vem sendo consolidada entre consumidores, assistências técnicas e até em algumas avaliações periciais.

E esse cenário merece atenção.

Porque, quando não existe um critério técnico claramente estabelecido, podemos cair em dois extremos igualmente ruins.

De um lado:

aceitar situações que realmente comprometem o desempenho.

Do outro:

promover substituições indiscriminadas que geram retrabalho, custos, diferenças de tonalidade, danos colaterais e novos problemas.

Nenhum dos dois caminhos representa boa engenharia.

A pergunta precisa mudar

Talvez devamos abandonar a pergunta:

“Há ou não há som cavo?”

E passar a perguntar:

“Este sistema mantém sua capacidade de transferir esforços através das interfaces aderidas e continua desempenhando, com segurança e durabilidade, as funções para as quais foi projetado?”

Essa segunda pergunta é muito mais difícil.

Mas também é muito mais correta.

Ela exige inspeção.

Exige ensaios.

Exige análise da aderência.

Exige compreender o histórico da obra.

Exige avaliar a localização e a extensão das regiões ocas.

E, principalmente:

exige engenharia.

Prevenir continua sendo melhor do que discutir

Há, porém, um aspecto sobre o qual não deveria existir qualquer dúvida.

Durante o assentamento, precisamos ser rigorosos.

  • Preparação correta da base.
  • Planicidade.
  • Escolha adequada da argamassa.
  • Controle do tempo em aberto.
  • Formação correta dos cordões.
  • Dupla colagem quando aplicável.
  • Movimentação adequada da placa.
  • Verificação do preenchimento.
  • Controle de juntas.
  • Inspeção durante a execução.

Quanto melhor for o controle nessa fase, menor será a probabilidade de terminarmos a obra discutindo subjetivamente se determinado “toc, toc” significa ou não uma falha.

Foi justamente assim que encerrei aquela reflexão:

mais importante do que discutir a aceitabilidade do som cavo depois da obra é buscar excelência no assentamento enquanto ainda podemos controlar o processo.

Afinal, som cavo é defeito?

A resposta que considero tecnicamente mais responsável é:

depende.

Depende de onde está.

Quanto ocupa.

Como se distribui.

Qual é o tamanho da placa.

Qual é a aderência.

Qual é o ambiente.

Qual é o estado de tensões.

Se existe movimentação.

Se existem fissuras.

E, principalmente, como esse comportamento evolui ao longo do tempo.

O som cavo merece atenção.

Mas atenção não significa condenação automática.

Na Engenharia Diagnóstica, um sintoma nunca deveria substituir o diagnóstico.

E talvez essa seja exatamente a grande incógnita do momento.

Fim · de volta à órbita

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