Estrada · Retrofit 360° · Copan

Retrofit 360° no Copan: quando restaurar significa refazer a história, pastilha por pastilha

Mundo Planville®

6 min de leitura

Há edifícios que são construções. E há edifícios que pertencem à memória de uma cidade.

Há edifícios que são construções.

E há edifícios que pertencem à memória de uma cidade.

O Copan, concebido por Oscar Niemeyer, é um deles. Suas curvas, sua escala e sua presença no centro de São Paulo ultrapassaram há muito o limite da arquitetura para se tornarem parte da identidade urbana brasileira.

A fachada ondulada do Copan vista de drone, na altura dos brises

Por isso, falar em retrofit do Copan não é simplesmente falar em recuperar uma fachada.

É falar em preservar uma obra de Niemeyer sem retirar dela aquilo que o tempo transformou em patrimônio.

Foi justamente essa experiência que tive a oportunidade de apresentar no evento Retrofit 360°, no case sobre o restauro das fachadas do edifício.

E, entre tantas particularidades dessa obra extraordinária, escolhi destacar uma que me toca especialmente:

As pastilhas do Copan voltaram a ser feitas.

Não estou falando simplesmente de encontrar no mercado uma pastilha “parecida”.

Estou falando de reproduzir uma peça para que ela pudesse novamente pertencer ao Copan.

Pastilhas singulares para um edifício singular

Durante o processo de restauro, surgiu uma questão aparentemente simples, mas tecnicamente e historicamente complexa:

como substituir as pastilhas deterioradas de um edifício com mais de seis décadas sem alterar sua identidade?

A resposta foi fazer novamente aquilo que já não existia no mercado.

A Cerâmica Atlas desenvolveu e produziu, sob encomenda exclusiva para o Copan, pastilhas cerâmicas de massa plena de 2 × 2 cm, buscando preservar o padrão original da fachada.

Foram produzidas peças brancas e cinzas específicas para a obra, com preocupação de fidelidade cromática e material.

Isso, para mim, é uma das essências do verdadeiro restauro.

Não substituir a história por algo aproximadamente semelhante.

Mas procurar reconstituí-la com técnica, pesquisa e respeito.

E aqui preciso lembrar de um amigo

Ao falar dessas pastilhas, não consigo separar a engenharia das pessoas que fizeram parte dessa história.

Faço questão de registrar a memória do saudoso Geraldo José Aloyse Ricciardi, meu amigo, profissional profundamente ligado à vanguarda da indústria cerâmica brasileira.

Sua dedicação e seu conhecimento estiveram associados a essa jornada das pastilhas especiais desenvolvidas para o Copan.

Na própria apresentação fiz questão de deixar registrado:

pastilhas singulares, desenvolvidas para um edifício singular.

A documentação do case registra que a Atlas concebeu e produziu peças de massa plena com características fiéis às originais, dentro dessa preocupação de precisão e respeito à obra.

Para mim, portanto, este não é apenas um dado técnico.

É também uma homenagem.

Oscar Niemeyer desenhou a curva. O tempo nos entregou a responsabilidade de preservá-la.

O Copan nasceu da visão de Oscar Niemeyer, com seu desenho sinuoso e uma liberdade formal que se tornou símbolo da arquitetura moderna brasileira.

Sua fachada não é apenas uma pele que reveste o edifício.

Ela participa da leitura arquitetônica da obra.

As curvas do prédio, associadas ao concreto armado, dão ao Copan uma sensação permanente de movimento e continuidade dentro da paisagem paulistana.

Por isso, qualquer intervenção em sua fachada exige mais do que conhecimento construtivo.

Exige respeito à arquitetura.

Em um edifício como esse, trocar uma pastilha aparentemente insignificante significa mexer em uma pequena fração de uma composição concebida há décadas.

Multiplique isso por milhares de peças e começamos a compreender a dimensão do problema.

O restauro foi muito além das pastilhas

É importante reconhecer também o enorme trabalho realizado pela Concrejato Serviços Técnicos de Engenharia S/A, responsável pela execução da obra.

O restauro foi conduzido a partir do diagnóstico existente e do projeto executivo elaborado pelo Instituto Pedra, no qual foram definidos os materiais, os procedimentos e as especificações necessárias para preservar a integridade histórica e arquitetônica do edifício.

Nas fachadas, a intervenção envolveu uma sequência extensa de trabalhos:

remoção dos revestimentos comprometidos, recuperação de concreto, tratamento de pontos de oxidação, correção de deficiências de cobrimento, tratamento de fissuras, chapisco, recomposição do emboço, assentamento das novas pastilhas e tratamento das juntas.

Ou seja:

não houve simplesmente uma troca de revestimento.

Houve uma reconstrução criteriosa do sistema.

A obra também revelou aquilo que estava escondido

E como ocorre nos grandes retrofits, o edifício começa a contar sua própria história quando abrimos suas camadas.

Um dos achados mais interessantes foram os chamados “estopins” de oxidação.

Pequenos arames utilizados originalmente para amarrar as fôrmas de concreto permaneceram na estrutura e, décadas depois, tornaram-se pontos associados à corrosão.

O trabalho passou então a ser realizado praticamente ponto a ponto, peça por peça.

Foram utilizados aproximadamente 56 m³ de argamassa polimérica, correspondentes a cerca de 700 m² de áreas recompostas, e estima-se a execução de mais de 10 mil pontos de reparo.

É nesses momentos que percebemos uma característica fundamental do retrofit: o projeto orienta a obra, mas a própria obra também ensina.

Revestir é vestir

Na apresentação utilizei uma ideia que resume muito daquilo que penso sobre fachadas:

Revestir é vestir.

Uma edificação também possui suas camadas.

Algumas aparecem.

Outras permanecem escondidas.

Mas todas cumprem uma função.

No restauro do Copan, cada camada retirada revelava um pouco mais sobre como aquele edifício foi construído e sobre como deveria ser recuperado.

E talvez seja exatamente por isso que a história das pastilhas seja tão representativa.

Elas são pequenas.

Mas, quando reunidas aos milhares, ajudam a formar uma das fachadas mais reconhecidas do Brasil.

O que chamo de Retrofit 360°

Foi a partir de experiências como essa que amadureci minha visão sobre o que denomino Retrofit 360°.

Para mim, retrofit não é uma simples reforma.

É um ciclo:

conhecer → diagnosticar → projetar → experimentar → executar → controlar → preservar → manter.

No Copan, esse ciclo envolveu pesquisadores, projetistas, executores, indústria, especialistas em materiais e preservação patrimonial.

Cada profissional participou de uma parcela dessa história.

A Concrejato, executando uma obra de enorme complexidade.

O Instituto Pedra, estruturando o projeto de restauro.

A Atlas, aceitando o desafio de voltar a produzir uma pastilha capaz de conversar com aquela criada décadas atrás.

E profissionais como meu saudoso amigo Geraldo José Aloyse Ricciardi, cuja história se mistura à evolução da cerâmica brasileira.

Tudo isso para preservar uma obra concebida por Oscar Niemeyer.

Talvez esta seja a grande lição do Copan

Restaurar patrimônio não significa congelar o passado.

Significa permitir que ele continue existindo.

Com materiais contemporâneos quando necessários.

Com tecnologia.

Com controle.

Com engenharia.

Mas, acima de tudo, com respeito.

No Copan, uma pequena pastilha de 2 × 2 centímetros ajuda a contar uma história de mais de seis décadas.

E poder dizer que essas pastilhas foram novamente produzidas especialmente para o edifício talvez seja uma das demonstrações mais bonitas do que significa restaurar.

Porque Retrofit 360° não é simplesmente fazer o edifício parecer novo.

É permitir que ele continue sendo ele mesmo.

Fim · de volta à órbita

Continue no mundo

Ver tudo →